“On the road” e a juventude americana no pós-guerra

04/08/2008

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Get your motor runnin’, head out on the highway…

Apesar de não ter sido o primeiro livro publicado de Jack Kerouac, On the road (Pé na estrada aqui no Brasil) foi o que deslanchou sua carreira e levou a Geração Beat ao “estrelato”. Mas por que este livro se tornou um marco para a juventude da época? Vejamos.

Quem foi Jack Kerouac?

Nasceu com o nome Jean-Louis Lebris de Kerouac em 12 de março de 1922, descendente de imigrantes canadenses que foram tentar a sorte nos Estados Unidos, na cidade de Lowell, Massassuchets. Morreu jovem aos 47 anos de idade, em 1969, devido aos problemas ocasionados pelo consumo excesivo de álcool. Alguns dizem que foi devido ao hábito de beber vinhos ruins.

Teve seu primeiro livro publicado em 1951, chamado The Town and the City, obtendo algumas resenhas a seu favor, mas vendendo pouco. Em 1951 escreveu o futuramente aclamado On the road, sobre suas viagens no final da década de 1940 cruzando os Estados Unidos com seu amigo Neal Cassady e encontrando e reencontrando amigos, a maioria autores da posteriormente chamada Geração Beat.

Foi Kerouac, inclusive, quem cunhou o termo Geração Beat. Foi considerado como o porta-voz desta geração, a seu contra-gosto.

Por que escreveu On the road?

Para entendermos por que ele escreveu este livro devemos prestar atenção ao que acontecia na sociedade americana. Os famosos american dream, o sonho americano, e o american way of life tornam-se mais evidentes após a segunda-guerra mundial. O american dream é a crença na liberdade de que cada americano pode vencer na vida com trabalho duro, e o american way é marcado fortemente pelo consumismo e o individualismo.

Além disso, as taxas de natalidade aumentaram consideravelmente, e acaba acontecendo o baby boom na população americana. Causas comumente atribuídas para o surgimento do baby boom são as baixas taxas de natalidade durante a depressão financeira a partir de 1929 e da segunda guerra mundial.

O baby boom é um indicativo da prosperidade financeira que permitiu o surgimento do american dream e do american way. Grande parte da prosperidade financeira se deveu às exportações americanas para o velho mundo, praticamente destruído pela guerra.

Lembremos que a juventude da década de 1950 cresceu durante a segunda guerra. Imagine o que acontecia na mente de uma criança americana coisas como o fantasma do nazismo ou o ataque a Pearl Harbor. Então, apesar do otimisto presente na população, a juventude do pós-guerra estava desorientada. Além disso, a maioria dos soldados que lutaram eram jovens, e voltavam para viver uma vida “normal”, e, com razão, sentiam-se deslocados. Muitos jovens nutriam um sentimento de derrota e sentiam-se amargurados com este novo mundo que surgia, tão diferente de sua época.

E não foi diferente com os autores da Geração Beat. A maioria sentia-se deslocada do ambiente em que estava inserida. Sendo assim, esse grupo iniciou uma ruptura com o movimento de então, literariamente falando. O constante uso de gírias significa uma ruptura com o academicismo presente na época, e é característica forte de todo o movimento Beat.

A prosa espontânea

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Para escrever On the road Kerouac utilizou um rolo feito com várias folhas coladas, não sendo necessária a troca de folha ao terminar uma página. Além da utilização do rolo, ele também não utilizou parágrafos ou pontuação na escrita, sendo estes incluídos no processo de edição. Kerouac utilizou a chamada “prosa espontânea“. Era uma tentativa de se aproximar do mesmo ritmo da fala.

Curiosidade: Este rolo esteve em exposição ano passado em um museu na cidade natal de Kerouac.

A prosa espontânea guarda certa similaridade com o jazz, a música preferida dos escritores beats, pois o jazz da época era bastante aberto a improvisações. Houve, inclusive, tentativas de uma fusão da literatura beat (através de poesia) com o jazz.

Não selecione a expressão, siga os livres desvios da mente (associação) em infinitos mares de idéias, navegando no mar da língua inglesa sem nenhuma outra disciplina além do ritmo da respiração retórica e da sentença falada… Improvise tanto quanto quiser. (Jack Kerouac)

A repercussão de On the road e a contra-cultura

Apesar de ter sido escrito em 1951, o livro foi publicado apenas em 1957. Após sua publicação, sofreu inúmeras críticas negativas, os autores beats eram constantemente atacados, e os organismos “oficiais” (revistas literárias de prestígio, universidades, etc.) resistiram a esta literatura.

Apesar, e por causa, disso, ela se tornou um forte movimento de contra-cultura. Os autores beats eram o que se chamava por hipster. Os hipsters eram uma espécie de subcultura na década de 1940, aficcionados por jazz, adeptos do uso de drogas, normalmente pobres, sem apego a conquistas materiais e interessados em padrões novos e não convencionais.

FlandersBeatnikParents.pngCom a popularização de On the road a Geração Beat ganhou visibilidade. O movimento tornou-se clichê e surgiram os beatniks, que nada mais eram do que os “fãs”, digamos, da literatura beat e do que ela representava. Muitos autores beats sentiram-se incomodados com a febre que surgiu, incluindo Jack Kerouac. Kerouac sentia-se realmente incomodado com o estrelato, principalmente por não conseguir trabalhar devido ao assédio dos fãs. Há relatos de que gritavam a frase “all work and no play make Jack a dull boy” (muito trabalho e pouca diversão fazem de Jack um bobão), na tentativa de convencer o “astro” a sair e encher a cara com eles.

Anos após o surgimento dos beatniks, já na década de 1960, começou a surgir o movimento hippie (derivativo de hipster), a partir de beatniks em San Francisco. Eles foram os herdeiros dessa geração.

Enfim, tanta enrolação para saber que…

o livro On the road surgiu numa época em que a juventude procurava por algo diferente, não se sentia confortável no mundo “cor de rosa” do momento. Assim o livro teve seu espaço foi o estopim de um movimento contra-cultural nos Estados Unidos do pós-guerra, pois muitos jovens viram-se na figura de Sal Paradise, Jack Kerouac no livro — a editora preferiu não utilizar os nomes reais das pessoas, temendo eventuais processos. O movimento Beat teve grande influência na transformação da literatura e cultura de então, e influenciou a contra-cultura por décadas.

Fontes

  • ASHER, Levi. Literary Kicks
  • CHARTES, Ann. Foreword In.: The beats : literary bohemians in postwar america. Dictionary of literary biography, v. 16. 1983. p. IX-XIV
  • DARDESS, George. Jack Kerouac In.: The beats : literary bohemians in postwar america. Dictionary of literary biography, v. 16. 1983. p. 279-302
  • PEÇANHA, Dóris Lieth Nunes. Movimento beat : rebeldia de uma geração. Petrópolis : Vozes, 1987.

Categoria(s): História, Literatura
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