Você sabe a diferença entre xiitas e sunitas?

29/07/2008

Devido aos freqüentes conflitos ocorridos no Oriente Médio a partir da segunda metade do século XX e início do XXI (principalmente a partir da década de 1970), e agora com a ocupação do Iraque, a religião islâmica, o islamismo, ganhou grande destaque da mídia. Dentre os vários elementos dos quais temos conhecimento dentro do islamismo são os termos xiita e sunita. Mas o que eles representam? Primeiramente temos que ter em mente que, tal qual o cristianismo, o islamismo não é uma coisa só. Os xiitas e os sunitas são os principais ramos dentro da religião atualmente.

Além deles há, entre outros ramos que não cabe citar aqui, os sufis, que são os chamados místicos islâmicos, e que não são necessariamente um ramo à parte dos xiitas ou sunitas, podendo um Sufi ser ou sunita ou xiita. A peculiaridade do Sufi é que ele procura a unidade por trás das coisas materiais, por trás da religião, possui um caráter mais espiritual, diga-se de passagem, aproximando-se em alguns aspectos das crenças do extremo oriente (hinduísmo, budismo, etc.). Acreditam em um estado de união com Alá [fonte]. Uma característica marcante dos Sufis é que praticam o ascetismo — grosso modo, a privação dos prazeres da carne - para alcançar a verdade por trás das coisas.

A divisão entre xiitas e sunitas surge inicialmente como uma rixa essencialmente política sobre a sucessão do líder da comunidade islâmica, que se tornaria o califa. Após a morte de Maomé, em 632, o escolhido pelo profeta para assumir seu posto, segundo muitos, seria seu primo e genro Ali — Maomé não teve filhos homens, apenas uma mulher, Fátima. Outros acreditavam que ele não tinha explicitado um sucessor e que este deveria ser escolhido através da população islâmica. Devido a estas disputas Ali vai se tornar apenas o 4º Califa. Após sua morte, um de seus filhos — netos de Maomé — deveria se tornar o próximo califa. Porém, ambos foram assassinados. Com o passar do tempo essa diferença tomou contornos ideológicos e teológicos, o que é compreensível no caso do islamismo, por ser uma religião onde a política está vinculada à religião e uma diferença política certamente reflete em uma diferença teológica.

“Enquanto a divisão inicial começou devido uma disputa sobre a sucessão do califado, a diferença entre os xiitas e sunitas transformou-se em uma disputa filosófica sobre a natureza do Imã, ‘aquele que dirige a oração, o guia supremo de uma comunidade islâmica’ [fonte]. Os sunitas acreditam que o Imã deve ser escolhido através de um consenso da comunidade, enquanto os xiitas acreditam que o Imã precisa ser um descendente de Ali” [fonte]. Dentro deste conceito, os xiitas acreditam que o Imã é um ser iluminado e tem o conhecimento supremo — é infalível. “Já os sunitas acreditam que qualquer fiel pode ser um imã, desde que sua reputação não tenha manchas” [fonte].

Outra diferença marcante é que os sunitas utilizam-se da Suna e do Hadiz quando se deparam com questões não tratadas no Alcorão. Suna e Hadiz nada mais são do que livros que sintetizam os atos e as palavras de Maomé. Este é outro ponto de divergência, pois os xiitas não aceitam a autoridade destes livros, e por isso a autoridade do Imã é suprema. (Partindo do comentário de Ali, fiz uma rápida pesquisa e,  ao que tudo indica, os xiitas também utilizam estes livros, a diferença entre os xiitas e sunitas consiste na interpretação deles.)

Os xiitas crêem tanto na divindade do Imã que há, dentro do xiismo, um ramo chamado duodecenista, acreditam na vinda do 12º califa, ou Imã. Este 12º Imã seria Muhammad al-Mahdí, desaparecido com a idade de quatro anos, em 873. “Ele reaparecerá no momento determinado por Alá. Ele é O Esperado que espalhará a justiça pelo mundo” [fonte]. Assim os xiitas ficam na expectativa da vinda do messias que guiará o mundo para a paz, como na dedicatória de um livro acerca do islamismo: “Dedicado al Duodécimo Imam, el Protector, el Pacificador (Dios le bendiga), largamente esperado por la Humanidad.”

Enquanto os xiitas têm no Imã essa qualidade quase divina, os sunitas se apóiam na Suna como fonte de aplicação da lei islâmica, buscam viver de forma mais prática, voltada ao mundo terreno, no que concerne à teologia e à política. A polêmica aumenta quando as questões se voltam para avanço tecnológico, quando o fiel entrará em contato com situações em que o profeta Maomé não se deparou. Dessa maneira o fiel utilizará a Suna, buscando soluções práticas. Resumindo a questão, seria algo no sentido de perguntar como Maomé trataria esta situação. Totalmente contrário da crença xiita, em que apenas o Imã teria autoridade para tal decisão.

Uma situação que fomentou a formação de vários grupos foi a expansão muçulmana, que fez o islamismo entrar em contato com outras culturas, algumas extremamente diferentes. E sendo o islamismo tolerante quanto aos costumes de outras culturas, permitiu-se uma troca de valores e mesmo a permanência de traços culturais de cada região. Há certos costumes entre os muçulmanos que são praticados apenas em algumas regiões, como a remoção do clitóris nas meninas, praticado no Oásis de Buraimi, nos Emirados Árabes.

Apesar de estarem submetidos a uma religião única, tendo como livro sagrado o Alcorão, e se apoiando nos cinco pilares, os grupos islâmicos possuem suas divergências até certo ponto significativas. Porém, cada ramo reconhece o outro como seguidor da mesma religião e dos mesmos preceitos, logo, por mais que eles não sejam homogêneos, não se chega ao ponto de afirmar que o Islã é uma religião dividida.

Fontes

Categoria(s): História
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