Olimpíadas, bronze e outros causos

14/08/2008

Lendo algumas coisas sobre o desempenho dos atletas brasileiros em Pequim, não posso deixar de comentar a comoção nacional que está sendo feita sobre o fato dos atletas não possuírem mais medalhas e pela festa que fazem com o bronze.

O post que mais me chamou a atenção foi o do Cardoso, que escreveu sobre o fato do Brasil estar atrás do ranking de países como o Zimbábue e outros menos desenvolvidos que nós, e que o esporte olímpico brasileiro não evolui. Concordando em partes com o post, não concordo com a generalização, acho leviano colocar todos os esportes olímpicos no mesmo saco.

A ginástica feminina, por exemplo, evoluiu e continua evoluindo; a passos lentos, é verdade. Mas, parafraseando nosso querido presidente, nunca na história das olímpiadas o Brasil conseguiu colocar uma equipa na final. Ficou em oitavo, mas, para um país que nem isso conseguia, é ótimo. Já no basquete feminino, por exemplo, na minha opinião, está fazendo um papelão. Assisti a um jogo e foi simplesmente bisonho. Saudades da Hortência e Paula.

Sobre o número dos atletas, 277 atletas não significam 277 chances de medalhas no ranking, já que nestes 277 estão incluídos os de esportes coletivos, futebol, vôlei, vôlei de areia, basquete, etc. Ainda há o masculino e feminino em cada modalidade. Apesar de não serem números oficiais, a delegação americana conta com 646 atletas, quase três vezes a mais do que o Brasil. A China, com 579. O Zimbábue, com… 13 atletas. Levando isso em consideração, e o número absoluto de medalhas de cada país, o Zimbábue obteve 23% de aproveitamento (contando cada medalha de cada atleta em esportes coletivos como uma, mas como ainda não saíram medalhas coletivas, o número de medalhas é o mesmo do ranking). Os Estados Unidos contam com um aproveitamento de… de… 5,26%. Ou seja, considerar o número de medalhas como superioridade de um país a outro não deixa de ser uma comparação de muletas. Se é necessário fazer comparações, que se faça com o Brasil em outras olimpíadas. Aí sim concordo que o Brasil “devoluiu” em números absolutos. Mas vamos esperar o final desta competição para fazer a contabilidade final.

Outra questão pertinente é a do favoritismo. Um atleta que não esperava medalhas levar uma de bronze é mérito, outro que era favorito ao ouro levar de bronze, soa como prêmio de consolação. Cito a Kethlyn e o Tiago Camilo, que numa entrevista não me pareceu muito contente com a medalha. No Bronze Brasil 2008 li sobre o atleta sueco que jogou fora sua medalha, bom, ele tem o direito de ficar frustrado pela “conquista” da medalha, mas vale lembrar que o fato de ter perdido o ouro ou prata foi puramente “mérito” seu. Se achava-se superior aos outros, bom, não era. Ou não foi na luta, que é o que importa. No futebol, tanto masculino quanto feminino, não podemos nos contentar com menos do que o ouro. No vôlei masculino também, embora, se jogarem como jogaram contra a Rússia, não vai ser fácil. Ou seja, a conquista da medalha é relativo ao atleta. Há momentos em que é a glória, em outros é apenas o primeiro dos últimos.

Sobre o esporte brasileiro no geral, vejo três grandes problemas:

  1. Não é nem a questão de medalhas, mas, sim, que os esportes menos tradicionais são estimulados em “épocas olímpicas”, mas nos anos depois são deixados de lado;
  2. A falta de grandes centros de treinamento, fazendo com que os destaques se formem mais a partir de talentos individuais do que propriamente de treinamento. Portanto o meu medo é que, nos vários esportes, quando a geração atual estiver aposentada, não existam mais representantes no mesmo nível, que nos leva ao próximo problema;
  3. A falta de renovação. Já deve ser a milésima olimpíada que o Hugo Hoyama participa. Não que ele seja ruim, mas não há espaço para uma nova geração? Ou não existe?

Portanto, não venho aqui colocar panos quentes no esporte brasileiro, dizer que está lindo e maravilhoso. Precisa melhorar muito. Escrevendo esse post me lembrei do auê das declarações feitas pelo Popó, há alguns anos:

Estou cansado de lutar pela pátria e não ter reconhecimento. Estou há um ano sem patrocínio e agora lutarei profissionalmente, buscando o melhor para mim e minha família.

E o que predominou foi o pensamento de “traidor”. Pois o atleta brasileiro tem que representar a sua pátria, custe o que custar.

Portanto, parabéns, sim, aos atletas por suas conquistas individuais. Parabéns aos que, mesmo com a precária estrutura, tentaram, mesmo não conseguindo. Não é “cultura de coitadinho” é noção da realidade, saber que de Fusca fica difícil ganhar de um Opala.

Categoria(s): Esporte
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