MP3, liberdade da informação e arte interativa

10/04/2008

Da série “Textos que comecei a escrever há alguns meses mas só agora tive saco para terminar”.

Li no blog de Gilberto Jr. um post em que ele comenta o sucesso do filme Tropa de elite, e como a pirataria ajudou nesse sucesso. Não sei se o filme teve comerciais com o trailer dele na televisão, como a maioria dos filmes, mas, pelo acompanhei, não precisava. A pirataria foi a melhor forma de divulgação que o filme poderia ter tido, pois, além de colocar o filme na “boca do povo”, levou-o a ser notícia em muitos meios de comunicação, possibilitanto a muitas pessoas conhecerem o filme.

Acho fantástica a interatividade e a cooperatividade que a Internet proporciona. Mas esta é uma questão complicada. Se por um lado sou a favor da liberdade da informação, por outro lado há pessoas que abdicam de um trabalho formal e dedicam esforço, tempo e, alguns, dinheiro em cima de um projeto com a finalidade de ter uma renda em cima daquilo, e, no final, esse trabalho acaba sendo distribuído livremente… nunca soube de alguém que tenha falido por causa da pirataria, no entanto, não é justificativa. Alguns praticam a pirataria como filosofia: é a liberdade da informação — neste caso o termo “pirataria” soa pejorativo —, mas a maioria a pratica calcada na Lei de Gérson. Talvez isso seduza as pessoas, sei lá. Por outro lado, a pirataria acaba se tornando um meio de divulgação do trabalho de um artista. Usando um exemplo pessoal, foi o que aconteceu comigo e a banda Morphine, em 2003. Após baixar algumas músicas, resolvi comprar todos os álbuns da banda. Além disso, quando meu carro foi arrombado, levaram-me um dos CDs da banda. Comprei-o novamente.

Mas não dá para discutir liberdade de informação sem discutir o próprio conceito de propriedade, e o que esse conceito engloba. Discutindo-se isso pode-se definir o que é pirataria e o que é informação livremente distribuída. Essa discussão toda ocorre porque nosso modelo econômico não suporta algo do tipo “ter” sem pagar. É, até certo ponto, um anacronismo dentro do capitalismo, pois é um modelo centrado — em linhas gerais, ressalvadas as especificidades — na propriedade privada e no capital. Mas quando o conceito de propriedade chega a itens imateriais, como definir o que é propriedade? Quando se compra um CD de música está se pagando pela mídia ou pelo conteúdo dela? As ondas sonoras contidas naquele material podem ser consideradas propriedade de alguém? Ou é a manipulação das ondas sonoras que são propriedade? Ou, ainda, paga-se pelo trabalho que aquele artista teve em manipular o som da maneira que fez, ou seja, a mão de obra? Se assim for, quando se copia a música sem pagar, não se está infringindo muito mais as leis trabalhistas do que qualquer outro dispositivo de afronta à propriedade?

Claro que, para fins didáticos, ignorei propositadamente o conceito de propriedade intelectual, algo que parece ser natural — se fulano teve a idéia, ela é dele. Mas, se for se pensar a fundo, o termo “idéia”, ou a elaboração de uma idéia, é algo passível de ser posse de alguém?

O fenômeno das músicas no formato mp3 e músicas online não significa apenas que achamos o CD caro demais, mas, também, demonstra que estamos nos cansando do formato atual de distribuição. Não é à toa que a iTunes Store faz tanto sucesso. Em 1999 a banda Public Enemy disponibilizou um álbum para venda online, e acredito que a tendência seja essa, com exemplos cada vez mais “vanguardistas”, como o caso do Radiohead, em 2007. O músico Beck foi outro que procurou inovar neste sentido, lançando o álbum semi-interativo The information. A começar pela capa, que vem em branco e, com os adesivos que acompanham o CD, cada ouvinte pode fazer a sua própria art cover. Na página de vendas do álbum no site da Amazon há disponíveis várias art covers, feitas por quem o comprou — a loja criou um espaço especialmente para isto. Achei a idéia da montagem da capa fantástica, pois cada capa conterá, consciente ou inconscientemente, reflexos de como a música afetou cada ouvinte, logo, não haverá dois álbuns com a mesma arte na capa. E, no que toca às músicas, segundo um artigo do portal G1, elas foram gravadas de uma maneira que permite ao ouvinte remixá-las — desde que tenha conhecimento em softwares de edição de som, lógico — como ocorreu com as do álbum anterior a esse, Guero. Segundo o mesmo artigo, o próprio Beck incentiva estes remixes por parte dos ouvintes.

O cinema é uma arte que pode comportar muito bem esta tendência. Com os hardwares de computador cada vez mais acessíveis, quem sabe num futuro próximo o espectador possa remontar o filme, editá-lo da maneira que achar melhor. Esta tendência de interatividade do público com a arte não é recente. Se não me engano, é uma tendência que surge com a arte pós-moderna, na década de sessenta. Na época do lançamento do filme A idade da terra, em 1980, Glauber Rocha dizia que seu filme poderia ser exibido com os rolos projetados em ordem aleatória (cada rolo de filme tem uma duração de cerca de quinze minutos), e ainda assim o filme faria sentido. O que é isto senão uma remontagem do filme? A idéia pode não ser atual, mas hoje está muito mais próxima do apreciador consumidor de arte. No caso do cinema, a remontagem, hoje, já pode ser feita por qualquer pessoa que tenha um computador com um hardware mínimo e o DVD do filme. Ou seja, recurso técnico já há.

Nesse sentido a liberdade de informação e a interatividade na arte andam de mãos dadas, pois quanto mais a informação for livre, maior será a possibilidade de interatividade com o público, transformando a obra de arte, que deixará de ser expressão individual para ser expressão coletiva. A grosso modo, é a arte open source. :-P

Categoria(s): Atualidades, Geeknópolis
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