Da série “Textos que comecei a escrever há alguns meses mas só agora tive saco para terminar”.
Li no blog de Gilberto Jr. um post em que ele comenta o sucesso do filme Tropa de elite, e como a pirataria ajudou nesse sucesso. Não sei se o filme teve comerciais com o trailer dele na televisão, como a maioria dos filmes, mas, pelo acompanhei, não precisava. A pirataria foi a melhor forma de divulgação que o filme poderia ter tido, pois, além de colocar o filme na “boca do povo”, levou-o a ser notícia em muitos meios de comunicação, possibilitanto a muitas pessoas conhecerem o filme.
Acho fantástica a interatividade e a cooperatividade que a Internet proporciona. Mas esta é uma questão complicada. Se por um lado sou a favor da liberdade da informação, por outro lado há pessoas que abdicam de um trabalho formal e dedicam esforço, tempo e, alguns, dinheiro em cima de um projeto com a finalidade de ter uma renda em cima daquilo, e, no final, esse trabalho acaba sendo distribuído livremente… nunca soube de alguém que tenha falido por causa da pirataria, no entanto, não é justificativa. Alguns praticam a pirataria como filosofia: é a liberdade da informação — neste caso o termo “pirataria” soa pejorativo —, mas a maioria a pratica calcada na Lei de Gérson. Talvez isso seduza as pessoas, sei lá. Por outro lado, a pirataria acaba se tornando um meio de divulgação do trabalho de um artista. Usando um exemplo pessoal, foi o que aconteceu comigo e a banda Morphine, em 2003. Após baixar algumas músicas, resolvi comprar todos os álbuns da banda. Além disso, quando meu carro foi arrombado, levaram-me um dos CDs da banda. Comprei-o novamente.
Mas não dá para discutir liberdade de informação sem discutir o próprio conceito de propriedade, e o que esse conceito engloba. Discutindo-se isso pode-se definir o que é pirataria e o que é informação livremente distribuída. Essa discussão toda ocorre porque nosso modelo econômico não suporta algo do tipo “ter” sem pagar. É, até certo ponto, um anacronismo dentro do capitalismo, pois é um modelo centrado — em linhas gerais, ressalvadas as especificidades — na propriedade privada e no capital. Mas quando o conceito de propriedade chega a itens imateriais, como definir o que é propriedade? Quando se compra um CD de música está se pagando pela mídia ou pelo conteúdo dela? As ondas sonoras contidas naquele material podem ser consideradas propriedade de alguém? Ou é a manipulação das ondas sonoras que são propriedade? Ou, ainda, paga-se pelo trabalho que aquele artista teve em manipular o som da maneira que fez, ou seja, a mão de obra? Se assim for, quando se copia a música sem pagar, não se está infringindo muito mais as leis trabalhistas do que qualquer outro dispositivo de afronta à propriedade?
Claro que, para fins didáticos, ignorei propositadamente o conceito de propriedade intelectual, algo que parece ser natural — se fulano teve a idéia, ela é dele. Mas, se for se pensar a fundo, o termo “idéia”, ou a elaboração de uma idéia, é algo passível de ser posse de alguém?
O fenômeno das músicas no formato mp3 e músicas online não significa apenas que achamos o CD caro demais, mas, também, demonstra que estamos nos cansando do formato atual de distribuição. Não é à toa que a iTunes Store faz tanto sucesso. Em 1999 a banda Public Enemy disponibilizou um álbum para venda online, e acredito que a tendência seja essa, com exemplos cada vez mais “vanguardistas”, como o caso do Radiohead, em 2007. O músico Beck foi outro que procurou inovar neste sentido, lançando o álbum semi-interativo The information. A começar pela capa, que vem em branco e, com os adesivos que acompanham o CD, cada ouvinte pode fazer a sua própria art cover. Na página de vendas do álbum no site da Amazon há disponíveis várias art covers, feitas por quem o comprou — a loja criou um espaço especialmente para isto. Achei a idéia da montagem da capa fantástica, pois cada capa conterá, consciente ou inconscientemente, reflexos de como a música afetou cada ouvinte, logo, não haverá dois álbuns com a mesma arte na capa. E, no que toca às músicas, segundo um artigo do portal G1, elas foram gravadas de uma maneira que permite ao ouvinte remixá-las — desde que tenha conhecimento em softwares de edição de som, lógico — como ocorreu com as do álbum anterior a esse, Guero. Segundo o mesmo artigo, o próprio Beck incentiva estes remixes por parte dos ouvintes.
O cinema é uma arte que pode comportar muito bem esta tendência. Com os hardwares de computador cada vez mais acessíveis, quem sabe num futuro próximo o espectador possa remontar o filme, editá-lo da maneira que achar melhor. Esta tendência de interatividade do público com a arte não é recente. Se não me engano, é uma tendência que surge com a arte pós-moderna, na década de sessenta. Na época do lançamento do filme A idade da terra, em 1980, Glauber Rocha dizia que seu filme poderia ser exibido com os rolos projetados em ordem aleatória (cada rolo de filme tem uma duração de cerca de quinze minutos), e ainda assim o filme faria sentido. O que é isto senão uma remontagem do filme? A idéia pode não ser atual, mas hoje está muito mais próxima do apreciador consumidor de arte. No caso do cinema, a remontagem, hoje, já pode ser feita por qualquer pessoa que tenha um computador com um hardware mínimo e o DVD do filme. Ou seja, recurso técnico já há.
Nesse sentido a liberdade de informação e a interatividade na arte andam de mãos dadas, pois quanto mais a informação for livre, maior será a possibilidade de interatividade com o público, transformando a obra de arte, que deixará de ser expressão individual para ser expressão coletiva. A grosso modo, é a arte open source. ![]()
Pesquise no blog
14/04/2008 às 09:29.
“Mas, se for se pensar a fundo, o termo “idéia”, ou a elaboração de uma idéia, é algo passível de ser posse de alguém?”
Precisa pensar a fundo pra saber que, se a idéia veio de alguém, ela é da pessoa? Se é difícil entender, tenha a idéia pra um filme, escreva um roteiro, desenvolva tudo, filme, lance e espere alguém roubar a idéia toda e dizer: “é passível de ser sua posse?”.
Ops, esquece. Você disse: “quem sabe num futuro próximo o espectador possa remontar o filme, editá-lo da maneira que achar melhor”.
É, deve ser ótima essa sensação. Só nunca entendi a tua preocupação em fazer algo digamos inédito, procurando se a idéia já foi elaborada por outra pessoa antes. Não faz muito sentido. Ou faz?
“a liberdade de informação e a interatividade na arte andam de mãos dadas”. Acho que teu conceito de interatividade está meio retorcido.
Esse post todo é um tanto absurdo.
14/04/2008 às 22:52.
“Se é difícil entender, tenha a idéia pra um filme, escreva um roteiro, desenvolva tudo, filme, lance e espere alguém roubar a idéia toda e dizer: “é passível de ser sua posse?”
Nesse caso não é a idéia que é propriedade do autor, mas o produto dela, no caso, o filme. Eu não acho tão simples assim esse conceito de propriedade intelectual, já que é um conceito, logo, formulado pelos homens, e além de tudo, abstrato. Abstrato pois o próprio produto da idéia não é palpável, mas, sim, o meio no qual ele se encontra (livro, roteiro, DVD, película, etc.)
Quando uma pessoa tem uma idéia, geralmente foi baseada em algo que ela presenciou, viu, viveu, e dificilmente é fruto apenas dos pensamentos dela.
“Só nunca entendi a tua preocupação em fazer algo digamos inédito, procurando se a idéia já foi elaborada por outra pessoa antes. Não faz muito sentido. Ou faz?”
Acho que o fato de eu pensar isso não tem a ver com o fato de querer fazer algo inédito. São duas idéias diferentes, uma é a relação com a propriedade intelectual e a liberdade da informação, a outra é meu anseio em ir além do que já foi feito, “criar” algo novo.
Sobre meu conceito de interatividade, nada mais é do que interação com a arte, e o que é criar algo novo a partir de algo feito senão uma forma de interação?
14/04/2008 às 23:49.
É óbvio que é a idéia. Aliás, é tudo. O produto é o resultado da idéia e tudo, o processo inteiro — começo, meio e fim — é da pessoa. Ou o intelecto só existe de enfeite? Qualquer coisa já nasce como um produto dentro da cachola, então? Existe um dispositivo que liga nosso cérebro a uma central de idéias para que apenas o resultado delas saia da nossa mente?
Às vezes tenho a impressão de que “conceitos abstratos” confundem a cabeça de alguns pobres mortais. Só se entende as coisas quando palpáveis? Opa, difícil viver assim. Os filósofos, então, coitados, são mortos de fome. Que diacho eles foram escolher da vida, né? Filosofia, as coisas “impalpáveis”.
Quando uma pessoa tem uma idéia, geralmente foi baseada em algo que ela presenciou, viu, viveu, e dificilmente é fruto apenas dos pensamentos dela.
Mas que grande absurdo. Você acredita mesmo nisso? Acho que conversei certas coisas com um outro indivíduo. Vim falar aqui acreditando numa coisa, mas acho que bati na porta errada. Antes era possível entender ou só se fazia de entendido? Como é? “Dificilmente é fruto apenas dos pensamentos dela”? Ou seja, criatividade simplesmente não existe, meus senhores. Rasguem todos os livros, queimem todos os filmes, é tudo mentira!
Tá, você quer criar algo novo, mas não acredita na criação. Ninguém vai além do que já foi feito sem acreditar sem os frutos do próprio pensamento. De novo, há conceitos totalmente distorcidos, porque você mistura aspectos sem quaisquer ligações. A arte não é feita para fabricar “produtos palpáveis”. Mas é de se esperar tamanha confusão. Por isso devo me ausentar, ó.

15/04/2008 às 09:20.
Opa, tem um erro ali. Um “sem” a mais. Whatever.
15/04/2008 às 22:03.
Mas eu não estou falando em entender ou não os conceitos abstratos, mas sim relacionando-os com o conceito de propriedade. O objeto cadeira é propriedade de alguém, mas o conceito de cadeira é? E quando duas pessoas que nunca ouviram falar uma da outra tem a mesma idéia? E a idéia é propriedade da pessoa a partir do momento que ela teve a idéia? Quando ela põe no papel? Como é isso? O conceito de idéia ser posse de alguém é tão estranho que a “idéia” nem é amparado pela lei do direito autoral.
Sobre a criatividade, ela não é eliminada quando se inspira em algo para criar alguma coisa. Joe Cocker não foi criativo na versão dele de “With a little help from my friends“? E não é porque a pessoa se inspirou em um acontecimento de sua vida, ou que presenciou algo, que deixa de ser menos criativa.
O fato de eu me debruçar sobre esse assunto me elimina de querer criar algo novo? São duas coisas sem qualquer relação. O texto é minha opinião sobre um tema, que é o quanto a liberdade da informação pode contribuir com a interatividade artística. Ponto. Não é uma cartilha ou um dogma sobre o que os artistas devem fazer com sua arte, ou sobre como devem criar sua arte, ou como devem tratá-la, ou etc.