Lendo os comentários dos jogos no site da Copa de Literatura Brasileira me deparei com um dos lados obscuros da Internet, um de seus lados mais patéticos. Aliás, pessoas patéticas, digo, que se escondem atrás do anonimato e de pseudônimos — uma maneira romântica de anonimato — para exporem suas opiniões. É uma tremenda falta de coragem se esconder atrás deste tipo de coisa. Engraçado que em comentários seguidos aconteceram duas coisas que podem ser incluídas no meu ranking “coisas patéticas que presenciei na Internet”.
A primeira foi o comentário de alguém utilizando um pseudônimo que “pertence” a outra pessoa — covardia em dobro não vale: “Você tem tanta coragem quanto uma barata ao usar um pseudônimo“. Oh boy! Duas colheres de covardia e uma de incoerência. As pessoas precisam cair na real e se dar conta de que a Internet não é brincadeirinha, onde tudo pode. Pessoas deste tipo parecem que a descobriram ontem e estão deslumbradinhas.
A segunda foi pior, por incrível que pareça. Uma pessoa deixou o seguinte comentário:
[...] nesse espaço de rede tem de tudo e acho ótimo essa liberdade de ser quem se quer ser, já que o fingimento é a convenção aceita por aqui. Quem quer assumir identidade verdadeira cria um site e põe o retrato nele, não é mesmo? Experimentei aqui pela primeira vez um nick masculino, quis falar [...] de “homem pra homem”, mas acho que continuo falando como mulher (que sou), é engraçado, mas o nick de homem soou meio falso pra mim. [...]
Como assim liberdade de ser quem quiser ser? As pessoas estão mais fucked ups do que pensei. Não é porque se está na Internet que não se é… você! Não adianta trocar um nome, não adianta tentar se passar por outra pessoa pois aquela pessoa na frente do teclado vai continuar a mesma — a não ser que tenha sérios distúrbios de personalidade — sem conseguir enxergar qualquer discussão sob outro ponto de vista. Até porque, escondendo-se sob esse anonimato, mostra-se uma pessoa tão limitada que não teria capacidade de enxergar qualquer coisa além do próprio umbigo.
Nessas horas que pergunto: que convicção uma pessoa que se “anonimiza” tem naquilo que escreve se nem a porcaria do nome assina? Aí elas retrucam com aquele velho discursinho da imprensa quando quer falar qualquer abobrinha: “liberdade de expressão”. É verdade, a Constituição Federal, no seu artigo 5º, incisos IV e V, assegura a liberdade de expressão e o direito de resposta, da seguinte maneira:
IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem; [grifos meus]
Ou seja: fale o que quiser, mas agüente as conseqüências. E, completando, quem não se identifica é covarde sim, a ponto de querer se esquivar de possíveis conseqüências. As pessoas têm a ilusão de que o anonimato na Internet é eficaz. Mal sabem que o número IP é perfeitamente rastreável, desde que se tenha os instrumentos corretos, tanto técnicos quanto jurídicos. Se nós, reles mortais, com um simples sistema de estatísticas conseguimos saber até a cidade de determinado número IP, imagine um especialista em segurança de redes!
Incrível como a Copa, com uma idéia tão boa, atrai tantos calhordas. Tal qual Midas, eles têm o poder de passar a sua calhordisse para os lugares que escrevem, e tenho receio que isso ocorra com a Copa, pois nenhum dos envolvidos nela merece esse baixo nível.
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