Observação do mundo

31/07/2007

Cheguei ontem de São Paulo, depois de ter passado um dia de Tom Hanks no aeroporto de Guarulhos na terça-feira, dia 24, devido à crise aérea. Ao menos para mim esta crise teve um lado positivo: ficar mais alguns dias ao lado dela, prolongando uma viagem que seria de seis dias.

Ontem, na ida ao aeroporto, fiz algo que costumo fazer quando estou em um lugar novo, ou mesmo quando vou a lugares que gosto, mas que não vou com tanta freqüência: olho para as construções, para os carros, para a rotina da cidade, na tentativa de capturar tudo aquilo em minha mente. Até certo ponto eu sou uma pessoa observadora, gosto de observar cotidianos, observar as pessoas na rua, suas reações, e me questiono para onde vão, de onde vêm, o que se passa na vida de cada uma delas. O engraçado é que isso acontece principalmente quando estou em um lugar novo. Por exemplo: há uns anos me mudei para um apartamento, em um andar alto, perto da rodovia BR-101, e uma das coisas que mais gostava de fazer era, durante a madrugada, me escorar na sacada, ouvir o som da cidade silenciosa e dos carros e caminhões na rodovia, observando-os e imaginando seus motoristas, seus destinos e suas procedências. Mas com o tempo deixei de fazer isso, à medida que a visão se tornou banal para mim.

Será correto isso? Deixar que as coisas se tornem banais? Não deveríamos tentar olhar tudo como se fosse algo novo? Experimentar todas as sensações como se fosse a primeira vez que as tivéssemos sentido? Eu acho que deveríamos, pois de outra maneira acabaremos por banalizar a nossa própria existência! Escrevendo isto lembrei de algo que li no livro O mundo de sofia. Muita gente já o leu, poucas o entenderam. A linha geral do livro é de uma menina, Sofia, que recebe cartas de um estranho. Nestas cartas o estranho escreve sobre filosofia. Abaixo cito um trecho de uma destas cartas. É um trecho enorme, mas não consegui cortar nada. Todos os negritos fui eu que destaquei. Copiei de um e-book na internet, pois não tenho o livro em mãos:

Cá estamos de novo. Com certeza já percebeste que este pequeno curso de filosofia vem em doses pequenas. Eis mais algumas observações introdutórias. Estás a seguir-me, Sofia? Receberás a continuação.
Eu já disse que a capacidade de nos surpreendermos é a única coisa de que precisamos para nos tornarmos bons filósofos? Se não o disse, digo-o agora: A CAPACIDADE DE NOS SURPREENDERMOS É A ÚNICA COISA DE QUE PRECISAMOS PARA NOS TORNARMOS BONS FILÓSOFOS.
Todas as crianças pequenas possuem essa capacidade, isso é óbvio. Com poucos meses de vida, começam a aperceber-se de uma realidade completamente nova. Mas quando crescem, esta capacidade parece diminuir. Qual será o motivo?
Poderá Sofia Amundsen responder a esta pergunta? Se um recém-nascido pudesse falar, diria certamente muitas coisas sobre o estranho mundo a que chegou. Porque ainda que a criança não possa falar, vemos como aponta à sua volta e agarra com curiosidade os objetos no quarto.
Quando começa a falar, a criança fica parada cada vez que vê um cão e chama:
— ão, ão! Começa a agitar-se no carrinho, e move freneticamente os braços: — ão, ão! Nós, que temos mais idade, sentimo-nos talvez pouco à vontade com o entusiasmo da criança. — Sim, sim, isso é um ão ão! — dizemos muito sabedores. — Mas agora senta-te. Não estamos assim tão entusiasmados. Já tínhamos visto cães antes.
Provavelmente, esta cena repete-se algumas cem vezes até que a criança possa passar por um cão sem ficar fora de si. Ou por um elefante, ou por um hipopótamo. Mas muito antes que a criança aprenda a falar corretamente — ou antes que aprenda a pensar filosoficamente — o mundo tornou-se para ela algo habitual.
É pena. Será a minha tarefa impedir que tu, cara Sofia, te tornes uma daquelas pessoas para quem o mundo é evidente. Para termos a certeza, vamos fazer duas experiências mentais, antes de começarmos com o curso de filosofia propriamente dito. Imagina que dás um passeio pelo bosque. De repente, descobres à tua frente uma pequena nave espacial. Da nave espacial, um marciano desce e olha fixamente para ti… O que pensarias numa situação dessas? Bom, isso, no fundo, é indiferente. Mas já pensaste que tu mesma és também um marciano?
Obviamente, não é particularmente provável que alguma vez encontres com uma criatura de outro planeta. Nem sequer sabemos se há vida nos outros planetas. Mas é possível que tu encontres contigo mesma. Pode acontecer que um belo dia fiques surpreendida e te vejas de um modo completamente diferente. Talvez isso se passe precisamente num passeio pelo bosque.
Eu sou um ser estranho, pensas tu. Sou um animal misterioso…
Pareces acordar de um sono de muitos anos como a Bela Adormecida. Quem sou eu? — perguntas. Sabes que estás num planeta do universo. Mas o que é o universo?
Se te descobrires desta maneira, descobriste algo tão misterioso como o marciano que mencionamos anteriormente. Não só descobriste um extraterrestre, mas sentes interiormente que tu própria és um ser desses.

Ainda me estás a seguir, Sofia? Vamos fazer mais uma experiência:
Certa manhã, o pai, a mãe e o pequeno Tomás, que tem dois ou três anos, estão sentados na cozinha durante o café-da-manhã. De repente, a mãe levanta-se e vira-se para o lava-louça: nesse preciso momento, o pai começa a voar em direção ao teto, enquanto Tomás observa.
O que te parece que Tomás diz? Provavelmente, aponta para o pai e diz: — O pai voa!
Certamente que Tomás ficaria admirado. Mas o pai faz coisas tão estranhas que um pequeno vôo acima da mesa já não tem importância aos seus olhos. Todos os dias faz a barba com uma máquina engraçada, por vezes sobe ao telhado para orientar a antena da televisão — ou enfia a cabeça junto ao motor do carro e aparece depois todo negro.
Depois, é a vez da mãe.
Ela ouviu o que Tomás disse e volta-se rapidamente. Como achas que reagirá vendo o marido a esvoaçar sobre a mesa da cozinha?
O frasco da marmelada cai-lhe imediatamente da mão, começará a gritar de medo.
Talvez tenha de ir ao médico, mesmo depois de o pai se ter sentado de novo na cadeira. (Ele já devia ter aprendido há muito tempo como se comportar à mesa!).
Porque é que Tomás e a mãe reagem de forma tão diferente? É uma questão de hábito.
(Toma nota disto!). A mãe aprendeu que os homens não podem voar. Tomás não. Ainda não distingue o que é possível do que não é.
Mas o que dizer do mundo, Sofia? Achas que o mundo é possível? Também está suspenso no espaço.
O mais triste é que ao crescermos não nos habituamos apenas à lei da gravidade, habituamo-nos, simultaneamente, ao mundo.
Aparentemente, perdemos durante a nossa infância a capacidade de nos surpreendermos com o mundo. Mas com isso, perdemos algo essencial — algo que os filósofos querem reavivar. Porque em nós algo nos diz que a vida é um grande mistério. Já tivemos essa sensação muito antes de termos aprendido a pensar nisso.
Vou ser mais preciso: apesar de todas as questões filosóficas dizerem respeito a todos os homens, nem todos os homens se tornam filósofos. Por diversos motivos, a maior parte está presa de tal forma ao quotidiano que o espanto perante a vida é muito escasso. (Descem para a pele do coelho, acomodam-se e permanecem lá em baixo para o resto da vida).
Para as crianças, o mundo — e tudo o que existe nele — é uma coisa nova, uma coisa que provoca estupefação.
Os adultos não o vêem assim.
A maior parte dos adultos vê o mundo como qualquer coisa completamente normal.
Os filósofos constituem uma exceção notável. Um filósofo nunca se conseguiu habituar completamente ao mundo. Para um filósofo ou para uma filósofa o mundo é ainda incompreensível, inclusivamente enigmático e misterioso. Os filósofos e as crianças pequenas possuem uma importante qualidade em comum.
Podes dizer que um filósofo permanece durante toda a sua vida tão capaz de se surpreender como uma criança pequena.
E agora tens que te decidir, cara Sofia: és uma criança que ainda não se habituou ao mundo? Ou és uma filósofa que pode jurar que isso nunca lhe acontecerá?
Se simplesmente abanas a cabeça e não te sentes nem como criança nem como filósofa, é porque te acostumaste tão bem ao mundo que este já não te surpreende. Nesse caso, o perigo está eminente.
E por isso te ofereço este curso de filosofia, para prevenir. Não quero que tu pertenças à categoria dos apáticos e dos indiferentes. Quero que vivas a tua vida de modo consciente. [...]

Categoria(s): A vida, o universo e tudo mais
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